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História do arquipélago da Madeira

 

Introdução

As ilhas do arquipélago da Madeira foram visitadas muito provavelmente por vários povos e, a partir dos princípios do século XIV, pelos portugueses. Com a conquista de Ceuta em 1415 e a fixação de castelhanos e de outros povos nas ilhas Canárias, a coroa portuguesa sentiu a necessidade imediata de povoar os arquipélagos atlânticos. Com base na organização da chamada "Armada do Algarve", que tinha por função a protecção do itinerário Algarve-Ceuta, mas que chegou a tentar reconquistar as Canárias, procedeu-se ao reconhecimento do Arquipélago. Foram incumbidos desta missão, a seu pedido, dois escudeiros do infante D.Henrique, que se encontravam em serviço nessa armada: João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira, que se deslocaram ao Porto Santo em 1419 e à Madeira, no ano seguinte.


Feito o reconhecimento à ilha da Madeira e recolhidas amostras das águas e das madeiras aqui existentes, ordenou o rei D. João I o seu povoamento entre 1420 e 1425. O Arquipélago foi dividido em três capitanias: Porto Santo, entregue a Bartolomeu Perestrelo, fidalgo da casa do jovem infante D. João, Mestre da Ordem de Santiago, e Funchal e Machico, na ilha da Madeira, entregues respectivamente a João Gonçalves Zarco e a Tristão Vaz Teixeira, escudeiros do infante D.Henrique, Mestre da Ordem de Cristo. Estes pequenos fidalgos, primeiro em nome do Rei e depois do infante D.Henrique, que conseguiu a doação do Arquipélago para a sua Ordem de Cristo após a morte do pai, instalaram-se com as famílias nas novas capitanias e passaram a usar o título de capitães do Donatário das Ilhas. Com o povoamento da Madeira e a exploração das madeiras aqui encontradas, foi possível a construção de navios mais robustos, com mastros de gávea e castelo de proa. Transitouse assim ao longo do século XV, das barcas e das pequenas caravelas de velas triangulares para navios maiores, onde o predomínio foi dado ao pano redondo. Estas alterações permitiram cada vez maiores viagens de reconhecimento ao longo da costa americana, quase sempre utilizando a Madeira como escala e ponto de referência. Nos meados do século XV, a produção agrícola da llha era já de certa forma importante, permitindo que parte dos excedentes cerealíferos fossem utilizados para reabastecimento das expedições enviadas para as costas da Guiné.
A Madeira funcionou nos primeiros anos de povoamento como um verdadeiro campo de experiências dos Descobrimentos Portugueses.
Ao contrário do que acontecera nas Canárias, que já eram parcialmente habitadas, a fixação dos europeus nas novas terras descobertas ao serviço de Portugal, como agentes de povoamento sistemático e de exploração agrícola, obteve êxito assinalável. Com uma nova mentalidade universalista, os pioneiros criaram, no arquipélago da Madeira, o embrião de uma sociedade moderna.
Ensaiadas culturas, que imediatamente deram lucros consideráveis, como os cereais, o vinho e
o açúcar, esta experiência veio depois a ser exportada para as novas terras, como os Açores,
Cabo Verde, São Tomé e Brasil, para onde foram enviados os modelos administrativos e militares, assim como os quadros formados na Madeira. Da Ilha saíu ainda apoio para a construção e manutenção de parte das praças do Norte de África, para o povoamento do Brasil
e para as explorações e conquistas do Oriente, acabando o Arquipélago por se constituir numa
verdadeira "ponta de lança" dos descobrimentos e da expansão portuguesa dos séculos XV, XVI e XVII.
Com o início do século XVI, em 1508, o Funchal foi elevado à categoria de cidade e, poucos anos depois, em 1514, a sede de bispado. Com a criação das dioceses de Angra, nos Açores, de Cabo Verde, São Tomé e Goa, ainda veio a ser sede de arcebispado, ficando estas novas dioceses como sufragâneas.
O porto do Funchal manteve nos inícios do século XVI contactos com outros portos europeus e
africanos, principalmente por causa da sua importante produção açucareira, encontrando-se o seu açúcar registado a partir dos meados do século XV, desde os portos do mar Báltico aos do Mediterrâneo, com especial referência nos mercados da Flandres. Assim, dessa época áurea
ficou na Ilha uma magnífica colecção de retábulos flamengos, notável pela qualidade e, principalmente, pelas excepcionais dimensões de alguns, que atingiam, por vezes, os 4 metros
de altura.
Como ponto de passagem, quase obrigatório, das primeiras armadas dos descobrimentos e depois das rotas comerciais desenvolvidas, transferiram-se para a Ilha importantes interesses europeus e nela se fixaram aventureiros e comerciantes das mais recônditas origens, na procura de melhores condições de trabalho e de vida. São disto exemplo os casos de Cristóvão Colombo e dos Catanhos, de Génova; João Esmeraldo, da Picardia; os Lomelinos, de Florença; os Mondragões, da Biscaia; e tantos outros. No entanto, ao longo do século XVI a atracção pela Madeira veio a sofrer dois fortes reveses. Por um lado, foi preterida como escala das armadas em favor dos Açores e, por outro, o seu interesse económico como produtor de açúcar, decaíu bastante, extinguindo-se a sua produção quase até final desse século. Passou-se então a importar açúcar do Norte de África e, mais tarde, do Brasil.
Com o final do século XVI e a crise dinástica que colocou no trono Filipe II de Castela, o Funchal reformulou a sua posição no quadro atlântico, conseguindo-se manter como um importante entreposto comercial, beneficiando então do tráfico da prata do Novo Mundo.
Dada a nova situação política, a Madeira conseguiu ultrapassar progressivamente as contingências da sua fundação com base nas capitanias-donatarias, passando progressivamente para a administração de um governador geral, assessorado por um corregedor para os assuntos jurídicos e um provedor para os assuntos económicos. Igualmente
foi por esta época que se fixou, em definitivo, a residência do prelado da diocese no Funchal, até então, por opção própria, com residência em Lisboa.
Filipe II começou por nomear para a Madeira, logo nos inícios de 1582, um desembargador com funções gerais de governo das três capitanias. No entanto, não era verdadeiramente um governador general, ou geral, mas um funcionário régio. Assim, logo no decorrer do mesmo ano, o Rei iniciou consultas tendo em vista a nomeação de um militar da corte para o governo geral do Arquipélago.
A primeira solução foi encontrada nas Canárias, enviando-se, por um período limitado, o conde
de Lançarote, acompanhado de uma força militar pessoal. Em breve, essa força foi substituída
por militares permanentes de Filipe II e o Conde, por um governador português, descendente
de João Gonçalves Zarco, 1° capitão do Funchal: Tristão Vaz da Veiga, que se havia distinguido como capitão na Índia e no Extremo Oriente.
Com o final do século XVI e a morte de Filipe II encontrava-se murada a cidade do Funchal e existiam rudimentos de defesa em todos os principais portos e desembarcadouros da llha. Para
a defesa militar, o governador ainda dispunha de um gabinete de guerra, com escrivão, sargento-mor e fortificador, estavam montadas e equipadas forças de milícia em toda a llha e
existiam forças permanentes estacionadas no Funchal. Por outro lado, encontravam-se instalados, e a funcionar, o colégio dos Jesuítas e o seminário diocesano do Funchal, orgãos essenciais para a defesa dos princípios cristãos da Ilha que, como ponto de escala internacional, era constantemente ameaçada pelas ideias da Reforma. Encontrava-se assim salvaguardada a defesa dos interesses portugueses na Madeira, ao nível do sentir da época, nas suas principais áreas: a defesa da Fé Católica e do Território Nacional.


Os séculos XVII e XVIII marcaram o aparecimento de uma nova e competitiva actividade económica na Madeira: a produção vinícola. Embora já com interesse económico, ao longo do século XVI, veio a ser, a partir dos meados do século seguinte, a actividade dominante e catalizadora de uma vasta rede comercial. Neste contexto vão surgir com papel comercial cada vez mais determinante os interesses da colónia do Brasil, assim como os da costa africana, produtora de escravos. Os interesses comerciais da Madeira foram mesmo, até certo ponto, confundidos com os do Brasil, estabelecendo-se um complexo intercâmbio comercial que levouà fixação maciça de madeirenses, principalmente nas áreas do Nordeste. Em parte, também ficou a dever-se a esta fixação o excepcional surto da produção açucareira do nordeste brasileiro. No entanto, igualmente se estabeleceram várias correntes migratórias madeirenses para outras áreas do Brasil e depois para Angola, então organizadas pela própria Coroa, através da constituição de levas de soldados e do envio de casais.


Ao longo destes séculos, desempenharam um papel cada vez mais determinante os comerciantes e interesses ingleses, ao ponto de, nos inícios do século XIX, a llha ser aproveitada como base de operações do exército inglês para a invasão do continente europeu.
Nessa altura, a soberania portuguesa foi totalmente relegada, hasteando-se a bandeira britânica em todas as fortalezas e expulsando-se do Funchal o governador e o bispo. Os cônsules ingleses passaram a desempenhar um papel fulcral em toda a política insular, havendo instruções especiais a este respeito para os governadores. As suas interferências eram de tal forma constantes, que colocaram frequentemente em causa o próprio governador, embora muitas vezes, por outro lado, servissem de suporte económico e administrativo à governação. A ingerência dos cônsules estrangeiros na llha, assim como a permanente mobilidade dos próprios madeirenses e dos seus contactos internacionais, fizeram da Ilha, a partir dos meados do século XVIII, um ponto de contacto importante para a constituição das novas ideias que conduziram ao liberalismo.
O porto do Funchal era então escala, quase obrigatória, de grande parte das armadas inglesas
das Índias Ocidentais, acabando a Ilha por entrar no amplo imaginário exótico europeu. O Funchal e a Madeira passaram assim a ser referência comum dos álbuns e livros de viagens do século XIX, por aqui passando elementos das principais famílias europeias. Chegaram a fixar residência temporária nas quintas do Funchal, cujo clima se tornara famoso pelas suas qualidades terapêuticas, a rainha Adelaide de Inglaterra, a imperatriz Sissi da Áustria, a arquiduquesa Carlota do México, a imperatriz viúva do Brasil e a princesa Amélia, sua filha.


Aos mares da Madeira aportaram diversas expedições científicas, ainda no século XVIII, como as do almirante James Cook e, no século XIX, o príncipe de Mónaco e o príncipe D.Luís, então herdeiro do trono de Portugal, para não citar outros titulares e cientistas. Já no século XX, o Funchal foi ainda exílio ou destino temporário de descanso de figuras notáveis, como o imperador Carlos de Áustria e família, o marechal Pilsudski da Polónia e o primeiro ministro Winston Churchill, de Inglaterra.
A importância do porto do Funchal levou a várias intervenções e ampliações nos molhes de atracagem, desde o primeiro quartel do século XIX, acompanhando tanto quanto possível a evolução dos grandes transportes marítimos e depois aéreos. Na baía do Funchal amararam, em 1921, os navegadores portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral, como primeira grande experiência de navegação aérea para a tentativa que levaram a cabo no ano seguinte, atravessando o Atlântico Sul em avião. Alguns anos depois, estabeleceu-se mesmo uma escala regular de hidroaviões ingleses no porto do Funchal. As condições gerais de localização e o desenvolvimento das rotas dos grandes paquetes, aliadas à benignidade do seu clima, fizeram do Funchal um dos grandes destinos turísticos europeus dos meados do século XX. Na segunda metade do século, o desenvolvimento fulgurante dos transportes aéreos levou à construção de um aeroporto e à reformulação geral do porto do Funchal.

(fonte: Assembleia Legislativa da Madeira)

 

 

 
 
   
 

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